sexta-feira, 31 de outubro de 2008

santo

"lembra-te do dia de sábado para o santificar" (exôdo 20:8).

quando eu era menor, ouvia que nós deveriamos ser santos. por ser filho de pastor, recebi o título de tudo, menos santo. na infância, a idéia de santidade é confusa. serei santo se ficar quieto na igreja, e se obedecer o papai e a mamãe.. santidade está ligada a coisas que se faz ou se deixa de fazer. e ainda por cima, Deus é visto como alguém que está constantemente olhando se fui bom ou ruim, como papai noel.

quando cresci, muitos esperavam santidade de mim e dos outros ao meu redor, e com razão, afinal a bíblia diz: "sede santos porque Deus é santo.." mas, mais uma vez, baseando-se em coisas que fazemos. hoje, eu busco santidade como todo cristão. mas devo dizer que na biblia santidade não comeca com algo que o humano deve fazer.

a bíblia diz "lembra-te do dia para o santificar". quando a palavra santidade, ou santificar, vem à nossa mente hoje em dia, naturalmente pensamos em coisas visíveis e físicas. este lugar é santo, o santuário no deserto era santo, esta pessoa é santa. mas na primeira vez que em que a bíblia menciona a palavra "santo", no hebraico qadosh, ela fala do quê? de algum objeto? ou uma pessoa? de comportamento? não! em gênesis 2:3, Deus descansa e santifica o dia de sábado! ele torna tempo santo. não é um objeto, uma pessoa ou um lugar. é um tempo.

pergunta fundamental: o que é santidade?

a primeira resposta que todos dão: é separação. e esta é uma bela resposta, pois na raiz hebraica de qadosh existe algo nesta direção - cortado, separado. porém, a palavra é grande e complexa. aborda um mistério chamado santidade que não se resume em simplesmente dizer: "santo é ser separado". o pensamento ocidental tenta sempre obter respostas rápidas. a preocupação é com o saber. "se eu souber, então fico tranquilo", dizem. o hebraico, no entanto, apresenta uma estrutura que ao mesmo tempo é complexa e simples. mistério.. um exemplo é o santuário no deserto, a morada de Deus. por que era santo? simplesmente porque era separado? não! era santo porque Deus estava ali. santidade, ao mesmo tempo que implica em separação, é presença. se uma pessoa se diz santa, mas não têm a presença de Deus, sua separação das outras coisas se torna duvidosa. se uma pessoa se diz santa mas continua cheirando como o mundo ao seu redor até o ponto de não se perceber diferença nenhuma, a santidade é questionável. a presença de Deus é o que torna tempo, coisas e tudo mais santo.

por que, então, logo de primeira Deus santifica tempo, um dia, o sábado, e não uma pessoa ou um lugar? Deus quer deixar um príncipio de santidade bem claro. ele não separa simplesmente este dia dos outros, mas o abençoa e o enche com a sua própria presença. enquanto o mundo no dia de sábado corre atrás de coisas e de espaço, Deus nos convida a santificar tempo para apreciar a sua presença. portanto, não vá dormir a tarde inteira neste dia de descanso, ou ficar louco atrás de afazeres "santos". a palavra shabbat (descanso, sábado) vêm da raiz hebraica yashab, que significa "assentar-se". no sábado não estamos correndo feito loucos, nem deitados dormindo o dia todo, mas assentados, na expectativa de entrar em contato e aprender deste Deus que se faz presente neste dia em especial, de uma maneira diferente dos outros. somos separados para estar na presença de Deus.

um dos meus autores favoritos, abraham heschel, em seu livro "o sábado" diz: "se uma pessoa não aprende como degustar o sabor do sábado.. ela nunca poderá apreciar o sabor da eternidade no mundo que está por vir..". por que ele escreve isso? já que no sábado temos a presença de Deus, aqueles que neste dia esperam, e se lembram, e o guardam, valorizam a presença de Deus. se Deus se faz presente neste dia, todas as outras coisas são então deixadas de lado, não porque está na lei somente, não porque Deus assim o fez somente, mas porque neste dia Deus está presente e ponto. o céu será uma experiência única porque teremos o prazer de estar para sempre na presença de Deus. portanto, experimentar esta presença desde já não é simplesmente necessário, é imperativo. o ponto de santidade não está fundamentado nas coisas que você faz ou deixa de fazer, ou neste ou naquele lugar. o fundamento está na presença de Deus.
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sendo assim, "lembra-te do dia", e descanse.

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por tiago arrais, 24. pastor da igreja adventista do 7° dia, hoje vive nos eua, onde cursa mestrado em antigo testamento na andrews university. tiago também é cantor e compositor. recentemente lançou seu primeiro cd (introdução - nt), em parceria com seu irmão andré.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

parêntesis

quando o assunto é pecado, sempre aparece, mesmo sem ser convidado, um intruso chamado julgamento prévio.

esse tal às vezes vem escondido - se nos bolsos de paletós bem cortados ou na mochila surrada, não importa -, mas sempre vem. diz-se por aí que é fácil identificar pecados na conduta das pessoas. alguns chegam a se apoiar nas palavras bíblicas "pelos seus frutos os conhecereis" (mateus 7:20) para explicar sua atitude covarde e desleal. o que não percebem é que o texto diz "pelos seus frutos os conhecereis" e não "pelos seus frutos os condenareis".

condenar tem que ver com pecados, é verdade. palavras ditas, roupas vestidas ou desvestidas, comidas e bebidas, presença em lugares "impróprios", ausências das mais diversas - isso, segundo a óptica vesga de quem ousa julgar, traduz o completo sentido do que seja pecado e essa é a munição de que precisam para seus ataques grosseiros e intempestivos.

conhecer é algo totalmente diferente. condenar é fácil, conhecer é difícil. condenar só leva de nós um pouco de saliva e uma dúzia de palavras arrogantes. conhecer exige mais. exige atenção para obervar o todo. exige tempo para a maturação dos frutos (atos). exige espaço para a dúvida. exige humildade para perceber a ignorância. exige ousadia para a repreensão. exige consagração para a intercessão. exige, sobretudo, um milagre: o perdão.

quem simplesmente condena, desconhece a existência de algo errado na vida das pessoas erradas (e uma delas sou eu), algo além de seus muitos pecados: o pecado, em sua essência. desconhecem a existência do vírus que percorre as veias dos atos e até dos pensamentos de todos nós, os azarados escolhidos para viver neste planeta errado.

não faz muito tempo, ouvi a história de uma viagem num trem lotado. era mais um daqueles dias que amanhecem frios e tristes do inverno europeu. em um certo vagão iam pessoas normais, com destinos normais, para atividades normais, em um dia normal. não queriam muita coisa, só o silêncio frio no vagão já lhes bastava. de repente, um choro de criança rouba-lhes o último privilégio. as pessoas acordaram, entreolharam-se, e como se o choro não fosse parar nunca mais, um homem se adiantou aos pensamentos da maioria e gritou: "alguém aí dê um jeito nessa criatura!".. silêncio por um momento. mas a desculpa tímida veio do homem que tinha o bebê nos braços: "desculpem-me, senhores.. é que o meu bebê não dormiu a noite toda. minha esposa morreu, seu corpo está no vagão de cargas. vamos em direção à nossa cidade natal para enterrá-la.. mas eu não sei muito bem como acalmar meu pequeno.. desculpem-me". o primeiro homem se calou envergonhado, duas mulheres se aproximaram para ajudar, o nenê dormiu e a viagem seguiu.

o pecado é um grito desajeitado em meio ao silêncio harmonioso da criação de Deus. o pecado fez até o próprio Deus chorar. há quem só perceba, e chegue mesmo a condenar, o choro das crianças no vagão dessa vida ingrata e desconheça a história do Pai que sofre.

antes de usar os dedos para condenar, use os joelhos para orar.
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antes de condenar, conheça.

domingo, 26 de outubro de 2008

parábola do rato

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era uma vez uma menina que não tinha um rato. mas, talvez influenciada pela popularidade de figuras como mickey mouse, topogígio e tom e jerry, a garotinha resolveu que queria porque queria um.. assim, toda manhosa, foi contar para o pai de sua mais nova e estranha necessidade. mas o pai não concordou com a idéia, explicando o perigo de ter um ratinho - as doenças, a sujeira, e essas coisas.

a menina insistiu, chorou, esperneou, mas nada mudou a ordem estabelecida.

o tempo passou e o pai teve que fazer uma viagem. iria passar dias longe, trabalhando. a família ainda se despedia na sala, quando a idéia veio. a pequena correu para o quarto, abriu uma das gavetas e encontrou o cofrinho. não pensou duas vezes: quebrou o porco, pensando no rato. juntou as moedas e saiu de casa, dando à mãe uma desculpa qualquer.

foi à loja de animais que ficava ali perto. aproximou-se do balcão e, mesmo sem conseguir enxergar quem estava do outro lado, entregou o saco de moedas, dizendo: "me dá um rato, moço". o moço que não tinha nada com a história, pegou as moedas e lhe entregou o bicho.

a mocinha voltou para casa toda feliz. trancou-se no quarto e começou a brincar com o novo amigo. e brincou, brincou, brincou.. e fim.
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o problema é que enquanto a menina amar mais o rato que ao pai, ela não vai querer que o pai volte. mas ele vai voltar. por isso cuidado com os ratos.

quem lê entenda.
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ps saudação ao mestre valdecir lima. quem lê entenda, de novo..

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

lembra-te


lembra-te
será que a lei quebrada foi na cruz? / ou anula foi? perdeu o valor? / mas como devo explicar que Deus não muda / que sua palavra é uma? / e como compreender / que o autor de toda vida / separa um santo dia? // eu sou criatura, Deus é criador / quem cria e restaura é o senhor / sábado perfeito / creio e obedeço / gravado na pedra para que / eu lesse: lembra-te // do dia santo e da criação / monumento da graça no meu coração / será que o que eu creio é mera teoria? / idéias distorcidas? / mas impossível é negar o que a palavra afirma / a força que me inspira // me recuso a crer no que os outro dizem / no que o mundo exige / como no passado, hoje a minoria / sustenta essa doutrina / perfeito dia em meio à lei que é eterna / descanso na promessa // eu sou criatura, Deus é criador / quem cria e restaura é o senhor / sábado perfeito / creio e obedeço / gravado na pedra para que / eu lesse: lembra-te

e descanse.







ps poema e canção por tiago arrais. faixa 4 do cd dos irmãos arrais - introdução. vale a pena ter o encarte, ler as poesias, dar os créditos.. você me entende.

árvores, 1/2

"a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos" (gênesis 3:6).
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imagine uma mulher no meio de um jardim, conversando com uma serpente voadora, que lhe oferece uma fruta de uma tal árvore proibida.. não, você não está lendo o quarto volume de "o senhor dos anéis".. é a bíblia. assim, o gênesis, o livro dos começos, conta como o pecado entrou no mundo.

muita gente, inclusive teólogos, não dá crédito a esse relato. para eles, trata-se mais de uma parábola, um mito, que aponta para realidades espirituais transcendentes. eu não encaro as coisas bem assim.. pois a história esquisita ganha sentido quando encaramos da perspectiva correta os protagonistas e o enredo em questão.. "por que uma árvore? e por que um fruto?", alguém pode perguntar. chega a ser estranhamente engraçado pensar que a história do mundo foi decidida por uma mulher diante de uma árvore. mas existem respostas a essas perguntas dentro de você e de mim.

antes de tudo, Deus. ele é o personagem principal da história. ele cria adão e eva. estes são livres. mas precisam de algo para provar a eles mesmo e ao resto do universo que servem e adoram a Deus por amor, e que esta é uma escolha consciente, fruto da confiança que têm em seu criador.

aqui entra a árvore.. e por que uma árvore? eu respondo com outra pergunta: exceto o casal e os animais, o que mais havia no jardim do éden além de árvores? nada.. e Deus achou sábio testar o casal, privando-o do fruto, e até mesmo das redondezas, de uma das muitas árvores que havia ali. e sabia que ainda é assim hoje?

naquele tempo não havia muitos tipos de roupa, para que Deus indicasse que tipo os seus seguidores não deveriam usar. não havia muitos tipos de bebida, para que algumas fossem proibidas por Deus.. naquele tempo não existia youtube. Deus não podia apontar os vídeos proibidos. não havia muitas músicas, muitos pratos, muitos relacionamentos, muitos lugares, muitos negócios, muitas diversões.. só havia árvores. e foi isso que Deus usou. mesmo sem muitas explicações, sem uma análise minuciosa do fruto da árvore, adão e eva tinham que dar provas de sua fé.
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quais são as suas árvores? o que chama atenção de seus olhos? o que lhe dá água na boca? o que existe do outro lado do seu jardim? onde você precisa dar provas de sua fé? pense nisso e ande do lado certo do jardim..

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no éden tem mais.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

carta, 2/2

eu espero que você entenda meu texto. esperar é uma sopa quente que tem que ser tomada aos poucos. esperar é ruminar uma comida já engolida, é se tornar um pouco boi um pouco vaca. porque, na verdade, poucas coisas são instantâneas na vida, bem poucas; e já que é assim, o jeito é esperar.

pra começo de conversa, é preciso esperar longos nove meses até uma criança se formar e botar o olho pra fora, pra ver o mundo. depois é preciso esperar pra poder aprender a falar e andar. e os pais que o digam! tão melhor se os nenês já pudessem dizer porque choram.. muita gente com certeza abortaria o projeto gangorra, britadeira ou qualquer outro modelo de “chacoalhada”, amplamente usado para abafar o tal desespero. sim, pra abafar o desespero dos pais porque a criança de colo, duvido que curta aquele saculejo todo e, claro, não pára de chorar.

é preciso esperar os benditos dezoito anos pra tirar uma carteira de motorista. diga-se se passagem, os dezoito anos mais demorados na vida de qualquer garoto que sonha em dirigir. e existe algum que por acaso não sonha? também é preciso esperar alguns anos até transpor aquela ponte bendita que nos coloca na universidade, quando enfim deixaremos de estudar a tal física quântica que nos irrita para enfim nos aprofundarmos nas matérias que nos são afins.

esperar e esperar.. acho que nascemos para esperar. quem por acaso já não esperou pelo derradeiro: "sim, quero namorar você!" estratégia esta que nem mesmo nos tempos modernos foi erradicada. a ciência ainda não descobriu, mas garanto que é transmitida pelos gens, de mãe pra filha. portanto, nunca vai sair de moda. está convicta, sonhou com o pedido noite e dia, não se cabe de contentamento, mas.. "eu te dou a resposta amanhã". ahrrrrr! e essa espera dói pra burro, pra cavalo, pra koala, pra qualquer bicho.

esperar é antes de tudo sentar a procura de uma nuvem quando ainda em sol aberto a metereologia avisa que vai haver chuva.

esperar é pegar hormônios adolescentes e apressados e confiná-los a uma solitária. porque jovem quer tudo pra ontem, ora! estes dias li uma frase: “urgente é o que você não fez em tempo hábil e quer que eu faça em tempo recorde”. verdade absoluta, nem sei quem escreveu mas acertou na mosca, certeza.

esperar é puxar o freio de mão na descida desvairada e inevitável da montanha russa do tempo. esperar é trocar a loucura pela sensatez, é deixar de ser imediatista e se tornar meio budista. esperar que na política vençam os mais capazes, os mais honestos é quase uma brincadeira de cobra-cega, uma utopia. esperar que um amor dure pra sempre é o supremo desejo de todo ser que se apaixona.
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esperar é e sempre será um exercício de fé no que virá, no que será.

por isso espero nunca desistir das minhas lutas, dos meus sonhos, mesmo quando por vezes me sinto um atirador fracassado, um soldado sem mira, errando meus alvos, não alcançando meus objetivos. espero nunca dar baixa do exército das minhas conquistas. espero não sucumbir até ver meus sonhos e ideais realizados e me pergunto: até onde um soldado aguenta viver sem medalhas, sem troféus? e fixo meu olhar na parede desnuda do meu recinto a procura de lauréis que não encontro. e penso alto: será que resistirei por muito tempo? só que aterroriza-me a idéia de ao desistir, o estar fazendo justamente a um passo da almejada glória. e estremeço ao pensar que isso nunca saberei por haver desistido quem sabe um minuto antes. por isso ainda prossigo e espero um pouco mais. espero ver o poder do amor transformando vidas em vez de simplesmente aproximando pessoas que, por mera conveniência ou por gostos e hábitos em comum, se divertem na companhia uns dos outros.

espero que aqueles que amo desesperadamente jamais se ausentem da minha vida. e se isso acontecer um dia, espero que não fique louco, que alguém surja do além e venha ocupar um lugar de destaque em mim preenchendo aquele vazio, aquele espaço que falta no quebra-cabeça do coração onde só os amores plenos encaixam.

e espero que a essa altura ninguém me trucide achando que meu texto deveria estar rumando pra um fim e parece estar longe de chegar lá. calma, espere, nem sei como acabá-lo ainda! espero me tornar um ser paciente, e aprender com a ampulheta invisível dos dias que esperar faz parte da felicidade. porque o livro santo afirma: “bem-aventurado os que esperam…” e fico então dopado, “draminizado” ao saber que existe virtude na calma, na paciência, nos resultados que podem vir.

percebeu que nesse universo, do lado de cá da linha que nos separa da perfeição o que é instantâneo quase sempre é negativo? talvez amor à primeira vista seja uma das raras exceções. e existe? talvez foto digital seja outra. tragédias são instantâneas - furacões, terremotos, ataques do coração e assim por diante. destruir é sempre mais fácil que construir. leva-se anos para lapidar uma obra de arte, apenas minutos para destruí-la. leva-se anos para ver uma árvore crescer e minutos para queimá-la, reduzindo toda sua beleza a um punhado de carvão. leva-se anos para construir um paraíso que em alguns segundos qualquer bomba atômica transforma em nada. é po risso que é melhor esperar, e é também por isso que existe virtude nos passos lentos mas firmes do tempo, que constrói, edifica e que só assim esculpe verdadeiras jóias.

esperar até que não dói, mas como incomoda! mesmo assim, contra minha impetuosa e imediatista vontade, espero. pra quê queimar a boca com sopa quente? e a tomo aos poucos, saboreando cada colherada, me transformando num ser degustativo e altamente sensorial. e espero que você me suporte assim, “zen”, um bicho “paz e amor”. e mesmo que não me entenda, espero pelo menos que na corrida desenfreada da vida você não me atropele. porque se trombar em mim, a sopa quente pode derramar toda em você. e daí eu espero que você, queimado e agonizando de dor, não venha botar a culpa em mim. afinal de contas, quem mandou se afobar?
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espere.




por jader santos, 46. atualmente morando no interior do paraná, jader santos é músico, escritor, produtor, poeta e pastor adventista. é um mestre. suas letras me motivaram a escrever e suas melodias inconfundíveis compõem a trilha sonora de momentos marcantes da minha vida. é um prazer ter sua amizade e suas idéias por aqui.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

parábola da festa

a cidade era pequena, mas naquela noite haveria uma grande festa. uma celebração há muito anunciada e esperada. só um detalhe incomodou a alguns..

antes que o sol nascesse, bateram à porta de maximus, deixando-lhe um embrulho e uma carta. a encomenda era dos organizadores do evento. envolvida num papel bonito, estava uma camiseta. a carta dizia que esta deveria ser sua roupa da noite e que pontualidade era exigida.

o rapaz achou estranho, mas resolveu olhar melhor a tal camiseta. aí veio o problema: a peça não agradou. não era da grife que ele costumava usar. a cor, embora viva e jovial, não era a sua predileta. a revista da última semana dizia que o modelo não estava mais na moda. e, além disso, ninguém em sua casa vestia coisa assim, deixada na porta.

e assim sem entender muito bem a carta, a festa ou a camiseta, maximus se dirigiu ao local no horário marcado. era um salão muito grande, com paredes de um vidro, mais que transparente, quase invisível. do lado de fora, foram muitos os encontros: eram amigos, vizinhos, parentes e muita gente desconhecida.. e mesmo de fora era possível ver lá dentro rostos familiares - todos com camiseta e riso novos, cores alegres e ar de comemoração. agora, com um pacote nas mãos, mais um convidado tem que decidir se vai entrar ou não..
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quem dá a festa paga a conta, mas pode escolher o traje. cuidado com as revistas.
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quem lê entenda.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

espelho, 1/4

já percebeu que as pessoas hoje não gostam de falar sobre pecado? "pecado" parece ser um conceito que não se encaixa no que hoje chamamos "politicamente correto". qualquer jogo de palavras que contenha a fórmula "pecado", aos ouvidos modernos, soa meio agressivo, deselegante, e por que não dizer quadrado e ultrapassado? é comum ouvir por aí alguém falar de erros, falhas, desacertos, inadequação, desarranjo, tropeços e até mancadas, mas "pecado".. isso não.

para alguns, "pecado" não passa de uma expressão empoeirada e secreta das páginas do livro preto das igrejas. para outros, é o mote hipócrita dos discursos de mercenários da religião - gente que viola a privacidade das escolhas individuais e tira proveito da culpa para lucrar em nome da fé. há quem pense assim. há também quem nem sequer se dê o trabalho de pensar sobre essas coisas.

o que não se explica é o senso natural que todos os homens e mulheres - de diferentes cores, em diferentes lugares e momentos da história - temos do que é correto, em essência, e do que é prejudicial ao ambiente comum. e não venha me dizer que isso é produto da evolução, pois, se fosse assim, os homens seriam cada vez melhores e caminhariam rumo à perfeição moral. não é isso o que leio nos jornais..

não se explica também o vazio que preenche tantos corações, a insatisfação com quem somos, a querença do melhor, a descrença no que temos. ninguém pode explicar, com caneta e papéis frios nas mãos, as segundas-feiras da vida, os baixos que teimam em suceder os altos que vivemos, o incômodo que causa a invariável "morte".

é, de fato, ousado afirmar que certas atitudes nossas ferem uma lei sobrenatural e de origem eterna, atitudes a que damos o nome "pecado", como ousado também é colocar em risco o egocentrismo materialista que produzimos com nossas escolhas. o problema é que o conceito de ousadia hoje também é muito pobre. ousadia, segundo a "tv-logia", é traspassar o nariz com um fio de metal. é ingerir álcool até esquecer o próprio endereço. é viver sem roteiro. é despentear o cabelo. é dizer mais "sim" que "não". é buscar ser diferente, mesmo que isso signifique se tornar uma cópia idêntica de alguém, ou de um certo grupo de alguéns.

a mensagem da bíblia é uma mensagem ousada para nossos dias. é só abrir suas páginas para ler, e sem rodeios: você é muito pior do que você pensa. ela conta uma história que a gente tenta desconversar. é um tratado contra o relativismo leviano. mas seu enredo não é de filme de terror, de um juízo de fogo. é mais uma espécie de suspense, cujo capítulo final quem escreve é você. o que você vai fazer diante dessa realidade?

você é muito pior do que pensa, mas Deus é muito melhor do que você possa imaginar. qual será o seu final?
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continua..

domingo, 19 de outubro de 2008

parece


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parece que nada acontece
os dias são iguais / conversas casuais / passos, os mais normais / possíveis / olhos que não se vêem / olhos que já não crêm / em provas que se lhes dêem / visíveis / medos de tantos outros erros do amor / dedos que buscam outros dedos / peito vazio, sem segredos // parece que nada acontece / na vida de quem não tem ninguém / parece que o medo enfrequece / e rouba a coragem de viver / parece que nada acontece / e se acontece não se vê / parece que nada acontece comigo // sossego contumaz / noites que tanto faz / desde que durma em paz / comigo / herança de quem quer / viver só pro que quer / tristeza e o que trouxer / consigo / se problematizei atalhos do amor / se me vendi à analgia / venda-me um banho de água fria // comigo vai tudo bem / bem longe do ideal / quem vive sem ter um bem / será que vive? / quem vive sem ter um bem / será que vive?

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ps poema, canção, violão e voz por cândido gomes. esta canção é para quem ainda vive sem um pedaço..

madrugada

não sei que horas seu relógio marca agora. talvez seja madrugada aí.. se é, não sei porque você ainda está acordado. pode ser que simplesmente o sono não tenha vindo ainda, mas pode ser muitas outras coisas..

quem sabe, não queira dormir com medo de alguma coisa que vai acontecer amanhã. talvez seja a ansiedade que não lhe deixa fechar os olhos. pode ser insônia ou vigília, à espera do filho que ainda não chegou. pode ser angústia, remorso, aflição.. ou apenas um hábito.

aqui, meu relógio marca 3:17 am e eu ainda não consegui dormir. não sei direito os motivos, mas desconfio de quais sejam.. sinto um misto de ansiedade e saudade. espero ansioso o que vem e choro silencioso o que foi. sinto falta de casa, dos abraços que mais amo na vida. sinto falta da lara.. espero respostas, viagens, milagres.. e sei que virão. mas enquanto não vêm, é difícil dormir.

as luzes se apagaram faz tempo. todos dormem. e o silêncio parece me convencer de que Deus pode me ouvir melhor agora. oro. parece que as orações mais sinceras são assistidas pelas madrugadas da vida. hoje, oro não tanto pela cura das feridas que a saudade me fez, ou pela confirmação dos planos que fiz. oro para que minha vida seja palco aberto para a realização dos sonhos de Deus. sei que não escolheria caminhos diferentes para meus dias se pudesse ver o fim desde o princípio, como ele pode. oro por mais experiências de fé ao seu lado. oro pela paz de seu perdão e pela alegria da salvação. não quero me entregar ao barulho dos palpites do mundo. em silêncio, quero ouvir a voz de Deus, pois, tão certo como o sol logo vai nascer, Deus ouve e responde a oração dos que o buscam no silêncio da madrugada.

não sei que horas marca o relógio de sua vida.. não sei qual é sua oração silenciosa de hoje. mas sei que Deus pode ouvi-la. ore. e espere a resposta que vem com o brilho do sol. o que passou calou, o que virá dirá.
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e durma.





ps oração da madrugada poema, canção e voz por daniel salles (negão). talvez essa música fale mais do que eu possa dizer a essa hora.. se a bíblia fosse escrita hoje, este seria meu salmo predileto.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

laranja

"amanhã será dia de descanso, sábado.." (êxodo 16:23).

em dias vazios de sentido, de explicações e de fé, Deus se apresenta: eu sou o criador.

em dias em que a pressa parece ser a solução e a sentença de muitos, Deus tem um convite inusitado: descansar.

em dias em que a memória é fraca e dependente dos orkuts da vida até para lembrar das datas mais importantes, Deus pede insistentemente: lembre-se.

hoje muitos líderes religiosos que arvoram ser porta-vozes do céu pedem que nos esqueçamos de coisas que o próprio Deus nos pediu que lembrássemos. depois de criar o homem, Deus lhe pediu que nunca esquecesse de descansar no dia sábado. quando o céu vai alaranjando na sexta à tarde, eu me lembro de Deus. de um pôr-do-sol a outro, comemoro a existência e providência do meu criador.

escolha um lugar especial para ver o sol se pondo. faça uma oração e receba a bênção que o sábado contém.

não esqueça.. e descanse.

quer saber?

venho por meio desta manifestar minha forte oposição ao conhecimento! você pode dizer: "adema, qual é o seu problema?" (e acidentalmente encontrar a rima). mas a surpresa disso tudo é que eu estou embasado!

para sustentar minha opinião vou refletir sobre as possíveis causas que levaram ao primeiro pecado da humanidade! satanás encobrificado (com o perdão do neologismo) disse a eva que Deus não queria que ela conhecesse o bem e o mal, pois isso a tornaria tão poderosa quanto ele. ela saberia o que Deus sabia: o outro lado da moeda. e essa curiosidade a fez cair. vocês acham que realmente valeu a pena adquirir esse conhecimento?

um grande amigo meu, quando sabia dessas fofocas cabeludas, dizia: "cara, eu nem fazia idéia, como é bom não saber!" outro, quando foi informado de que uma jovem estava aos prantos em público, disse: "se for fofoca, eu não quero saber". quão sábia foi a sua decisão, não?
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por que insistimos tanto em saber sobre o passado das pessoas, se Deus, o senhor do universo, já as perdoou e esqueceu suas falhas? e vou além, que valor tem se você dirigir uma vez na vida uma ferrari e perder o poder de dar valor àquela boa voltinha no seu fuscão. de que vale passar experiências extraordinárias e não conseguir dar valor às maravilhosas peculiaridades do cotidiano real? não vale a pena conhecer lugares maravilhosos se você não vai conseguir ser feliz em sua própria casa! talvez seja por isso que Deus nos orienta a não fazer sexo antes do casamento. ele não quer que você fique lembrando daquela relação e não dê valor ao que sua esposa (ou marido) tem a oferecer.

mas no meio disso tudo, Deus quer que saibamos de uma coisa. na história de jesus e a mulher samaritana, ele diz: "se você soubesse o que Deus pode dar a quem lhe está pedindo água, você pediria, e ele lhe daria a água da vida" (joão 4:10). e disse mais: "a pessoa que beber dessa água que eu lhe der nunca mais terá sede" (joão 4:14).é isso que jesus quer que nós saibamos: que ele nos ama e pode satisfazer nossa eterna busca por algo que nos complete. que apenas ele pode fazer isso, e não conhecimento ou experiências.

que ele nos ilumine na escolha do que queremos saber, que tipo de conhecimento vamos adquirir. e que as coisas que passamos nesta terra não nos desviem do foco ou nos tornem infelizes. e o mais importante: nunca esqueçamos que apenas a água da vida pode saciar nossa sede.
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beba sem moderação.







por ademar ferreira, 21. estudante de publicidade e propaganda, atualmente reside em engenheiro coelho-sp, onde estuda e trabalha. conhecido por seu bom humor, é companhia agradável e amigo de longa data.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

parábola do elevador

elevadores são lugares estranhos. uma caixa de ferro, onde se encontra gente desconhecida que lhe acompanha em uma pequena viagem - para cima ou para baixo. as pessoas não se tocam, não se falam, não se olham.. preferem assistir todas juntas o espetáculo dos números luminosos que acendem e apagam, mudos.

elevadores são uma parábola do mundo que criamos - um lugar lotado, impessoal, onde anonimato, isolamento e independência são a regra e a doença.. na geração dos relacionamentos descartáveis, pouco se sabe sobre envolvimento de verdade. uma das estratégias do diabo hoje é banalizar a existência humana, enfeitiçando-nos com explicações vazias, como a pressão do tempo, exigências do trabalho, crises pessoais.. e passamos pela vida nulos, sem dividir nem somar.

cristo viveu de um modo diferente. ele, o pensamento audível de Deus, foi o mestre na arte de parar para ouvir lamentos de cegos, tocar leprosos, ouvir histórias de gente sofrida, comer com quem não tinha companhia, lavar pés empoeirados.. jesus não era do tipo apressado, que deixa para falar depois. não tinha secretária, não marcava hora.. não entrava em elevadores.

e você? o que acha de resgatar as refeições significativas, as noites em família sem ruído de televisão? que tal encontrar ocasiões para um envolvimento real com pessoas necessitadas, ao invés de somente orar por elas?
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pare o mundo que eu quero descer. cuidado com o elevador.

quem lê entenda.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

olhar e confiar


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olhar e confiar

ao olhar pra mim / tudo que eu consigo ver é escuridão / tudo que parece ser é ilusão / que aprisiona quem só vive para si / ao olhar pra mim / sinto dores, tenho medo de não ser feliz / são visíveis os efeitos do que eu tanto quis / já me feri demais, preciso olhar além / além de mim, além do fim / além de coisas que perdi / preciso encontrar sentido em minnha cruz / preciso conhecer a história de outra cruz // e quando olho para trás / sou levado a esquecer o que hoje choro / e a mudar as orações que hoje oro / eu consigo ver além da minha cruz / quando olho para trás / noutra cruz eu vejo cristo abrir os braços / ganho forças pra seguir em novos passos / eu começo a entender o que virá / através dos planos que ele irá realizar / se eu apenas confiar // ao olhar atrás / vejo mais que simplesmente uma condenação / vejo marcas, vejo morte que me traz perdão / tudo que sinto aqui ganha sentido então

"olhai para mim e sede salvos" (isaías 45:22).

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ps poema e canção: cândido gomes câmera: mariana luongo cenário: unasp-ec. esta é uma das faixas (12) do novo cd da riane junqueira. é melhor ouvir o cd..

terça-feira, 14 de outubro de 2008

carta, 1/2

viver é esperar. nunca tinha verbalizado esse pensamento antes, mas é assim. a vida passa e a gente espera.

há esperas inevitáveis. a gente espera a hora de nascer, mesmo sem saber. nascido, não vê a hora de crescer. e, crescendo, espera um monte de coisa. espera a bicicleta, o primeiro beijo. espera tirar a carta de motorista. espera sair da faculdade. espera o casamento.. espera as férias, espera o natal. espera inclusive, mesmo que sem muita animação, o dia em que as esperas acabam. vive esperando que o dia chegue, pois sempre tem algum dia que precisa chegar: o dia do "sim", o dia do "não", o dia da volta, o dia da prova, o dia do encontro, o dia em que, finalmente, teremos algo a mais, mas que simplesmente precede uma espera a mais - a espera de mais um dia.. viver é esperar que o inverno termine e a flor desabroche, que a semente germine e a saudade afrouxe.

há esperas intermináveis. são esperas inconscientes, muitas vezes. a gente vive esperando o tempo da mudança, da melhora, da vitória - o momento em que vai ser melhor, em que vamos vencer traços de caráter, traumas, crises, dores.. o dia em que a dor não vai existir nem na lembrança.. são esperas sem fim, mas com finalidade. viver é esperar que o jogo vire, que o beijo dure, que a moda volte e o tempo cure.

há também esperas necessárias. e esse é o tipo mais interessante para mim. certas esperas têm o poder quase milagroso de dar gosto e sentido às consecuções. a vida de muita gente não passa de uma constante oscilação entre a ânsia de querer e o tédio de possuir, mas isso é fruto de esperas imaturas, mal recebidas, mal vividas. a simples espera pela refeição que se está preparando parece que lhe dá um sabor especial. o cheiro bom que vem da cozinha chega a causar arrepios em alguns..

estas esperas necessárias avançam em complexidade e é possível perceber seu valor até no rosto e na rotina de um rapaz apaixonado que espera pela decisão de sua amada. o desafio de esperar que o amor nasça em outro coração amadurece o amor que já existe no seu. até um olhar indiferente, uma palavra meio indecisa, um aceno casual já lhe rega a esperança.. e quando, finalmente, ganha de sua musa o abraço do coração, tudo que vem com ele é revestido de um sentido quase sagrado. é a coroação. não é um ponto final, mas uma porta aberta para sua felicidade. o caminho que leva a ela é mais que esperar, é esperançar.. viver é esperar que a fila ande, que a chuva passe, que o fruto caia e a maré baixe. são esperas inevitáveis, intermináveis, necessárias..

viver é esperar.. mas será que esperar é viver?
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espero resposta.
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ps será que o que você vive esperando é mesmo o que você espera viver? pense nisso..

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

parábola do salva-vidas

de repente, um grito rasgado anunciou a metade da gente bronzeada que alguém se afogava. um menino começou a chorar. o cachorro, intruso na praia, se entregou ao latir. a bola parou. o sol se escondeu. e a velha avisou: "isso sempre dá em morte"..

no meio da confusão, o primo do afogado, que estava de férias ali, sugeriu que chamassem o salva-vidas da praia, ao que responderam sem palavras e muitos olhares de repreensão. ele não entendeu nada e ficou calado dali em diante, rezando pelo primo. ao mar correram o pai, o tio e o vizinho. homens fortes, nadadores de longa data, fariam de tudo para salvar o garoto do pior. logo conseguiram trazer o menino à areia.

de longe, um sujeito de barbas longas, olhos claros, pele violentada pelo sol, observava tudo com expectativa. mesmo que soubesse prever o que aconteceria, não tomava parte na cena sinistra. ele era o velho salva-vidas do lugar.. durante anos fora protagonista de inúmeros salvamentos naquela praia, mas agora andava desacreditado pelas pessoas, devido a um triste episódio que ele, mais que ninguém, levava cravado na memória.. tempos atrás, uma garota muito querida na vila entrou no mar.. foi se afastando lentamente e tudo sob os atenciosos olhares do guarda da praia. até que, por segurança, ele pulou na água para buscá-la. os banhistas observavam a tudo e puderam ver o salva-vidas voltando sozinho de dentro do mar. a menina morreu e todos lançavam a culpa sobre aquele que, como afirmavam as testemunhas oculares, matara a moça.
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o que ninguém sabia, nem queria acreditar, é que a garota estava bêbada. andava triste na vida a ponto de nem querer mais viver. entrou no mar para morrer e mesmo os esforços do homem que salvava foram evitados por ela. naquela manhã houve uma luta no mar, mas nas águas profundas um afogado opcional sempre vence seu salvador. lá dentro não existe tal coisa como um dar a vida para resgatar a de outrem. isso só acontece em terra firme.
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agora, havia mais um corpo na beira do mar sendo visitado pela morte lenta. fora tirado de dentro da água, mas a água ainda estava dentro dele. seus pulmões não resistiram à presença estranha da água salgada e o menino morreu. afogado em terra firme, bem ali, ao alcance das vistas de quem poderia salvá-lo.
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mesmo assim, o salva-vidas continua lá, esperando algum perdido desavisado que ouse chamar por ele, mesmo sem conhecer-lhe o nome.. crendo que algum dia as pessoas dali irão perceber que existe outra água que mata. cuidado com a água - a de fora e a de dentro..
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quem lê entenda.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

longe

longe de casa é que se aprende coragem.
longe da escola é que se aprende verdade.
longe do aplauso é que se aprende humildade.
longe dos olhos é que se aprende honestidade.
longe das mãos é que se aprende trabalho.
longe do abraço é que se aprende saudade.
longe de mim aprendi novos começos.
longe de Deus só se conhece um mesmo fim.
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não sei se você já se sentiu como eu: onde quer que esteja, estou longe - de alguém, de um lugar, de um ideal.. há coisas que só o tempo e a distância nos revelam. algumas acalmam, outras assustam. mas são verdades que escondemos por detrás da rotina e das facilidades - somos nós. longe do nosso tudo predileto, somos nós mesmos e fim. estou longe.. mas onde quer que eu esteja, tenho sempre Deus por perto. isso é tudo.
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volto logo.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

atalho

"a arca da aliança do senhor ia adiante deles" (números 10:33).
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gosto de observar as pessoas. é possível ler muita coisa em seu jeito de andar pela vida.

às vezes passo tempo imaginando explicações para o andar tímido de alguns, os passos firmes de outros.. um penteado esquisito, um sorriso inextinguível, um silêncio inviolável, um palavrório de esquina - cada um em seu mundo, escrevendo sua história, sem muitas notas explicativas, sem muitas conclusões.

num mundo de tantas rotas relativas, a vida de muitos mais se parece uma corrida frenética em busca de um atalho para lugar nenhum.. e, querendo inventar um modo próprio de andar, os coadjuvantes do mundo das celebridades se rendem aos finais invariáveis que a vida real oferece.
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o povo de israel andando pelo deserto em busca da terra prometida é um tipo da realidade que se materializa em nossa caminhada pela vida. moisés, um tipo de cristo, era quem ia à frente. o abrir do mar vermelho apontava para aquele que viria como mestre das circuntâncias, senhor dos mares da vida - o único que pode acalmar as tempestades que afligem os que o seguem de perto. mas um outro símbolo me chama a atenção nas páginas empoeiradas no antigo testamento. Deus mandou que os melhores artistas da época, entre outras coisas, fizessem uma arca. todo o ornamento externo era um símbolo pálido da beleza do que ela iria conter: uma carta escrita pelo próprio dedo de Deus - um roteiro para a caminhada daquela multidão de escravos libertos e para todos os que no futuro fossem libertos do pecado pelo sangue de cristo.
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a arca era levada pelos sacerdotes, homens escolhidos, e simbolizava a própria presença de Deus. ia à frente, indicando a direção em que israel deveria andar. o povo ia atrás, seguindo à distância, quase um quilômetro depois (josué 3:4) da arca da aliança. isto tem algo a nos ensinar.. Deus tem um lugar melhor para onde quer nos conduzir. embora nunca consigamos atingir ou mesmo nos aproximar da perfeição de sua lei, ela continuará nos indicando o sentido em que devemos caminhar. não importa o quão longe estamos da perfeição, desde que caminhemos em sua direção.
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quem você tem seguido ultimamente? os erros mais populares? as figuras mais estranhas? os rostos mais bonitos? os prazeres mais baratos? as idéias das 6, das 7 ou das 8? quem (ou o que) você tem seguido?
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Deus conhece o fim da estrada e quer nos dar a alegria do final feliz. será que ele não saberia o caminho mais seguro para chegar lá? a lei que rege o universo pode dirigir também a sua vida.
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siga a arca.


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ps "a tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho" (salmo 119:105).

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

não sei se não sei

ah! o que dizer
se eu não sei?
o que pedir
se eu não sei se sei,
se eu não sei se quero?
o que dizer
se eu não sei se nem sei?
mas,
o que espero
se eu não sei
se alguém sabe
o que eu não sei?
não sei -
isso sei.


e que importa
só saber e não sentir?
que importa só saber
fingir?
quem não sabe
que só sabe
o que quer saber?
e quem não sabe
que só sente,
mesmo sem saber?
ah, não sei..
não sei se sei
dizer,
nem se não sei dizer
fim.

depois de mim, fim.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

corredor

"e nesse dia descansou" (gênesis 2:2).
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algo ocorre no organismo das crianças de 4 a 11 anos, que lhes proporciona um prazer inexplicável quando se tornam sujeitos do verbo "correr".

creio que era esta a sensação que corria pelas veias do menino apressado, em direção ao pátio.. até ser interrompido pelos gritos e gestos de uma das professoras. "pare, pelo amor de Deus!" repetia nervosa. o garoto parou diante dela, ainda ofegante, tão somente para ouvir o que já ouvira outras quinhentas e quarenta vezes: "você não sabe que é perigoso? você pode cair e se machucar.. ou esbarrar em alguém, correndo assim".

mas desta vez, acendeu-se uma luz e o rapazinho perguntou: "professora, qual é o nome desse lugar em que nós estamos?" o sermão ia continuar, mas ele a interrompeu, repetindo a pergunta: "só me diga isso: qual é o nome desse lugar?" meio desconfiada, a mulher respondeu: "isso é um corredor". foi o suficiente. "então", continuou o menino, "corredor é o lugar de correr.." e saiu correndo.
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a má notícia é que, com o passar dos anos, este gosto pela corrida abandona os pátios e invade a rotina. o que era brincadeira vira doença, e nós nos tornamos crianças crescidas que não sabem aonde vão, reféns de uma vida que não pára, e vai depressa, sem avaliar a rota, rever os mapas, acrescentar perspectivas, corrigir erros, encontrar sentido.
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mas há uma boa notícia. pelos corredores da vida, o criador espalhou, e com intervalos precisos, um lugar de descanso - o sábado. "sábado" vem do hebraico shabbat, cuja raiz pode ser traduzida como um verbo, "cessar" (associação com o final de um trabalho), ou como um substantivo, "descanso". a esse espaço no tempo Deus deu um nome especial e o selo de sua aprovação. ele mesmo parou ali. ao terminar a obra dos seis dias de trabalho, ele mesmo descansou..
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depois que o céu ganhar as cores do pôr-do-sol de hoje, é possível que alguém o chame para correr.. talvez seu chefe o convoque para continuar a corrida do trabalho. quem sabe um professor marque uma corrida extra na faculdade. ou alguém ligue, convidando você para uma corridinha, entre amigos, numa festa, num bar.. mas você sabe o nome do ponto em que estamos no tempo. ou não sabe?
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o nome do sétimo dia é descanso.. as portas estão abertas. a mesa está posta. há um lugar especial para você. o anfitrião o espera ansioso. a bagagem fica na entrada. só traga as mãos cansadas e as feridas abertas. ali há cura e descanso.
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pare. entre.. e descanse.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

praia

cresci numa ilha. isso não é muito romântico, quando se divide o espaço com mais umas oitocentas e tantas mil pessoas, mas morar a poucos minutos da praia me ensinou algumas lições que nunca vou esquecer.

lembro que, ainda pequeno, cria como ninguém em miragens. desconhecendo a existência de um grande porto ali por perto, ficava encantado com a freqüência com que elas apareciam - todas as vezes que eu olhava o horizonte.

lembro dos baldes e pás especiais para praia e dos castelos feios que conseguia fazer. lembro que chamava de biquíni minha sunga. lembro do medo que meu irmão menor tinha de água-viva. lembro de um dia em que quase me afoguei, mas não contei nada para minha mãe.

lembro dos primos que vinham de longe e de sua reação ao conhecerem o mar. para mim era estranho. para mim o mar sempre foi grande, sempre maior que a televisão. era como se eu o conhecesse desde sempre.

lembro, no entanto, com mais carinho das vezes que ia a pé à praia com meu pai. a gente acordava cedo e chegava lá a tempo de ver o sol acabando de nascer. lembro das corridas que ele me deixava vencer, dos mergulhos que me deixava dar, saltando de suas costas. mas lembro de algo mais. lembro de como gostava de encontrar, no dia seguinte, as pegadas que eu tinha deixado na beira do mar. e lembro o segredo do meu sucesso de todas as vezes: era só procurar as marcas de um pé bem pequeno - como os meus - acompanhadas de marcas dos maiores pés do mundo - os pés do meu pai. assim, me divertia encaixando meus pés no espaço aberto pelos pés que eu queria seguir.

hoje voltei àquela mesma praia. cresci e já não olho a vida com a mesma inocência e otimismo daqueles dias. geralmente quando vou à praia penso na vida. penso em minha família. penso em Deus. sozinho, gosto de repensar meus passos, analisar escolhas e encarar de frente o futuro. a que altura da vida estou? de que lado tenho andado? aprendi que, mesmo no mundo de gente grande, ainda é fácil saber. basta procurar as pegadas certas - as pegadas do Pai. não há maneira mais segura de andar (e viver) do que seguindo as pegadas que ele deixou ontem. segure sua mão e lhe entregue os passos.
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vá em frente.
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ps este texto foi escrito da ilha de são luís, no verão passado.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

muda

silêncio, despedida, esperança.

os sentidos que se unem pelos tempos e sintaxes.
não por expressão abrupta,
mas por singela necessidade.
eu me vejo o mais unido.
expressão que qualifica
meus silêncios descontínuos,
despedidas esperadas,
esperanças esquisitas:
muda muda tudo.

esqueci de avisar
onde eu parei.
situação gramatical
gritantemente muda.

depois de mim, não sei.