"o fim das coisas é melhor que o seu início" (eclesiastes 7:8)..
já estava cansado. tudo que mais queria era o silêncio da poltrona número cinco. conferi o horário - meio-dia e meia. o motorista deu o último aviso.. todos entraram e o ônibus partiu. olhei pela janela. não vi ninguém. aos ouvidos, nada além do barulho da partida. nada.. até ele começar a chorar.
era um menino pequeno. ouvi a mãe comentar com a moça do banco da frente que ele tinha três anos. seus soluços se misturaram ao som do motor que o levava para longe.. eu nunca tinha visto algo parecido. não sei dos pormenores da história. nem sequer seu nome eu perguntei. não sou muito simpático em viagens.. mas uni as poucas frases soltas que me alcançaram: estavam em brasília, visitando um pedaço da família.. ali, o menino conhecera uma irmãzinha, de quem fora separado num dos atalhos escolhidos pelos pais.. nos poucos dias que passaram juntos, um encanto especial os uniu.. agora, o garoto sem-nome chorava um choro de gente grande, ao se despedir de um pedaço seu..
a mãe não sabia o que fazer. ofereceu-lhe o brinquedo novo, mas ele não quis. um biscoito, uma revista, um afago.. mas sem sucesso. nada podia aliviar a dor que nem ele sabia explicar..
olhei mais uma vez pela janela.. olhei novamente para o menino e em seus olhinhos violados pela dor consegui enxergar o menino que eu levava por dentro. e chorei.. chorei calado, sozinho, escondido. mas chorei a mesma dor..
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nesses últimos anos de viagens, longe de casa, aprendi tudo que sei sobre saudade. a vida é uma eterna disputa entre sombras e cores, abraços e dores, espinhos e flores, começos e finais.. os encontros curam feridas, mas cada um deles esconde uma despedida - antes e depois - e uma nova saudade. assim, já não sei o que é pior: se o adeus que põe fim aos dias bons, ou o encontro que tão somente anuncia a próxima partida e nos assombra com a estranha sensação de que nem todo tempo é o bastante..
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o início e o final das coisas se confudem dentro de nossa pequena caixa-de-areia.. são vizinhos, parecidos, inexoráveis. são resposta às maiores questões, defeito aos maiores sonhos. por um momento as palavras do sábio me pareceram derrotistas, uma escolha pequena e pouco ousada. ele preferia o final. no entanto, tudo se torna mais claro quando encaramos seu discurso numa perspectiva mais ampla, que supere em muito as dimensões de nossa existência. salomão não falava de um final qualquer - de um relacionamento, um domigo, um ano, um sonho -, mas do final de todas as coisas - o final da viagem.
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não é possível ser feliz vivendo assim refém das distâncias, prisioneiro no tempo. no final, as coisas tomarão o devido lugar. e haverá lugar no espaço e no tempo para vivermos tudo que é preciso viver para ser feliz. o espaço será infinito e o tempo, eterno.
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como a viagem dele terminou, eu não sei. talvez daqui a um tempo nem se lembre daquele choro.. ainda tem muitos outros para chorar.
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eu não sei qual é o número da sua poltrona, nem o que leva na bagagem de suas lembranças. não sei onde foi seu último encontro, nem quando será sua próxima despedida. não sei em que estação desceu quem muito o amava, nem a que horas o assento ao lado vai ser ocupado por sua outra metade.. nada é muito certo durante a viagem. quanto a mim, quero apenas desembarcar muito logo no país onde não existe saudade.
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já chegou?

4 comentários:
nossa que lindo, uma mistura de sentimentos aqui, dá pra sentir.
tbm quero mto desembarcar nesse lugar onde não haverá mais saudade! frase bonita demais viu...
boa viajem para o próximo viajante!
cândido, senti cada emoção que vc viveu, enquanto lia. você tem essa capacidade. fazer SENTIR. Deus te deu um dom, vc sabia? :) hehe
Leitor, se vc leu, e no final seu coração ardeu por um novo Mundo, sem Oceano nem distâncias, então... junte-se a mim. Vamos pra lá? :D
Apesar de não te conhecer não poderia deixar de comentar...
A Marisa enviou-me o link e eu li este texto e tal como ela identifiquei-me com as tuas palavras, aliás quem não se identifica? Tens um grande talento! O meu desejo é que possas usa-lo sempre segundo a orientação divina e que Deus seja o número um na tua vida.
oi, adlaid! fico feliz com sua visita, seu comentário e identificação. obrigado pelas palavras de incentivo. e lhe convido a clicar mais vezes por aqui.. forte abraço.
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